Nosso diretor, Miguel Bemfica, em entrevista para o Propmark.
É difícil ver alguém, em plenas férias, falar de trabalho com tão largo sorriso no rosto quanto Miguel Bemfica. O profissional, que completou em novembro último dois anos na Espanha, onde atua como diretor geral de criação da JWT Madrid, não parece querer outra vida no momento. “Agora é que eu estou começando. Na Espanha, o tempo é outro, para tudo. Sinto que já passei da parte de plantar e regar, e estou colhendo resultados”, explica, lembrando que o começo da experiência, quando trocou a DPZ pela nova casa, não foi dos mais fáceis. “Eu cheguei no auge da crise, a agência estava sem diretor de criação há um ano e meio e havia uma política do próprio Martin Sorrell (ceo do WPP) proibindo a contratação ou substituição de funcionários. Sorte que tinha muita gente boa na equipe e tive total liberdade para mudanças internas”, conta.
As experiências em solo brasileiro acabaram por ajudar muito no processo. “Na Almap eu aprendi como funciona o dia a dia de uma agência, e na DM9 a como brigar, o ‘street fight’. Aproveitei o que conheci no Brasil para quebrar todas as paredes da agência, unir o online e offline, praticar o que tinha aprendido sobre integração. Lá ninguém tinha visto criação, planejamento e atendimento sentados juntos”, relata. Outro ponto alto que o auxiliou no início dos trabalhos foi a chegada de Fernando Vega Olmos na rede, como chairman de criação para Europa e América Latina. “Chegamos praticamente juntos e já tínhamos trabalhado juntos, na LoLa. Ele não interfere no meu trabalho, mas auxilia em muitos pontos”, ressalta Bemfica.
Com o fim da crise e o amadurecimento de seu modelo, o brasileiro começou a contratar novos profissionais e apresentar trabalhos que ganharam repercussão mundial. Entre os mais recentes está o “World’s first garbage hotel”, parte do projeto “Save the beach”, para a cerveja Corona. Um hotel funcional, com 10 leitos, foi montado em Roma a partir de 12 toneladas de lixo recolhido nas praias europeias. Uma placa com os dizeres “Se não fizermos nada hoje, este será o futuro das nossas férias” explicava a ação, que gerou mais de € 8 milhões em mídia espontânea, 650 mil hits no Google e 72 mil fãs no Facebook.
“Aprendi por lá que muitas vezes é preciso criar plataformas de comunicação e não apenas campanhas. Por ter formação jornalística, também procuro criar notícias, algo que repercuta na mídia. ‘Facebook’ e ‘Twitter’, por exemplo, são palavras que não faltam em nenhuma reunião”, enfatiza Bemfica, contando que o modelo de negócios das agências, sem mídia, também incentiva novas propostas. “Como não temos mídia internamente, a criatividade ganha peso”, complementa. Como reconhecimento, a agência, que nem figurava na lista das 100 mais premiadas da Espanha, agora ocupa o terceiro lugar, celebrando conquistas nas edições de 2010 de festivais como Cannes e El Sol.
Pela forma orgulhosa como conta sua atual experiência, Bem-fica parece não ter planos de voltar ao Brasil tão cedo. “Não gosto de fazer planos. Aprendi que eles podem ser atraso de vida. Tenho hoje 40 anos e ainda estou aprendendo. Fora que a vida na Espanha é ótima, vou a pé para o trabalho, estou a uma hora de milhares de destinos turísticos”, explica, sem descartar a possibilidade mais para frente. “Já fui sondado para voltar, mas perguntei: ‘não dá para esperar mais um ano e meio?’. Hoje estou feliz na JWT, veremos o que acontece mais para frente”, acrescenta.
Criativo continua na Cuca
Além de aprendiz, Miguel Bemfica tem também alma de professor. Tanto que fundou, há pouco mais de dois anos, antes de seguir para a Espanha, a Escola Cuca, localizada na capital paulista. Adotando a assinatura “Uma escola de criativos, feita por criativos, para criativos”, a instituição tem como principal função dar apoio a estudantes já formados, que precisam montar seu portfólio e conhecer o dia a dia de uma agência.
“Funcionamos como uma espécie de ‘personal trainer’. O cara chega à Cuca e tem experiências reais: briefing de verdade, prazo de verdade, além de ter grandes profissionais, vindos das maiores agências, como professores”, destaca Bemfica. No corpo docente há nomes como Valdir Bianchi (EC), Fernando Campos (Santa Clara) e Marcos Medeiros (AlmapBBDO), ganhador do Grand Prix de Press do Festival de Cannes 2010 em trabalho para a Billboard.
Apesar de não poder mais lecionar, pela distância, o diretor geral de criação da JWT Madrid continua acompanhando, quase que diariamente, as novidades da escola. “Sempre vejo o que acontece, recebo relatórios, participo. A Cuca é um projeto maravilhoso, que me dá muito orgulho. Ver gente que começou sem portfólio trabalhando em grandes agências, dividindo ficha técnica com professor, é emocionante”, detalha.
por Karan Novas
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